A ESCS foi palco do seminário “Jornalismo Climático na Universidade”. Entre os vários jornalistas, ativistas e investigadores, destacou-se Aline Flor. A editora do Azul explorou a maneira como o Público integra a crise climática no noticiário do dia a dia e alerta para a importância do tema

A sala enche-se de pessoas e sorrisos, logo pelas nove horas da manhã. Os murmúrios acabam por completo com a saudação calorosa de Vera Moutinho, docente da nova unidade curricular de Climate Journalism, no mestrado em Jornalismo, e coordenadora de um projeto pioneiro em Portugal: “Jornalismo Climático na Universidade”. Trata-se de um programa transfronteiriço de investigação apoiado pelos EEA Grants, um mecanismo financeiro plurianual através do qual a Noruega, a Islândia e o Liechtenstein apoiam monetariamente alguns estados membros da União Europeia, tendo contribuído para o desenvolvimento económico e social de Portugal.

Promovida pela secção de Estudos de Media e Jornalismo, da ESCS, em parceria com a Oslo Metropolitan University, a iniciativa reuniu vários jornalistas e estudantes, assim como ativistas, cientistas e investigadores na área do ambiente e, especificamente, do jornalismo climático. Alguns vieram do Norte da Europa, outros do Norte do país, mas todos com um objetivo comum: promover a literacia climática, abordando a forma como o jornalismo o tema.

Dá-se início ao seminário, que conta com seis intervenções ao longo do dia. É por volta das dez horas que a jornalista do Público Aline Flor se faz ouvir, explicando como é que o jornal insere a questão do clima, em histórias do quotidiano. “Trazer as alterações climáticas para o dia a dia é cada vez mais uma preocupação do Público”, afirma.

Em 2022, o jornal contou com 47.700 subscrições online e uma média mensal de 5,5 milhões de visitas no site. Mas no que diz respeito à crise climática, estes números não se refletem nas audiências. “É muito complicado contar histórias sobre o clima de uma forma que envolva as pessoas”, confessa. 

São várias as estratégias adotadas pelo Público para tentar combater a “fadiga climática”, que consiste na “aparente falta de interesse da população face às notícias sobre as alterações climáticas”. Os conteúdos de multimédia e infografias são essenciais para captar a atenção dos leitores. Os formatos de perguntas e respostas e quizzes também são úteis. Mas a chave está em expor temas locais e atuais. O Público dá a conhecer histórias com as quais os leitores se relacionam: “As pessoas querem ser ouvidas e ver as suas vidas refletidas”, declara.

Os jornalistas começam a abandonar as grandes estatísticas, que se mostraram ineficazes, e apostam em abordagens mais concretas, como explicar um dilema pessoal. “Outrora, eram publicadas notícias sobre as alterações climáticas apenas quando acontecia uma catástrofe ou algo alarmante. Hoje, o jornal integra o clima no noticiário do dia a dia, informando cada vez mais pessoas”, refere. E especifica: “Usamos situações atuais, como por exemplo os protestos dos ativistas radicais, como pretextos para enquadrar a ciência e o conhecimento nas notícias.”

Podcast Azul: À conversa com cientistas

“É fulcral integrar notícias sobre a crise ambiental nas editorias mais importantes de um jornal, como a Sociedade. Mas também é muito relevante ter uma secção exclusiva ao ambiente”, assegura Aline Flor. E foi nesta secção que nasceu a plataforma Azul, em maio de 2022, com o objetivo de atrair os jovens que procuram informação em suportes digitais. Do clima à biodiversidade, da atmosfera aos oceanos, dos glaciares à poluição, da energia à sustentabilidade, este meio aborda todos os assuntos complexos da maneira mais simplificada possível. 

No caso do podcast Azul, o conteúdo baseia-se em entrevistas a cientistas, que enriquecem o projeto: “O que nos difere de outros podcasts semelhantes é o nosso foco na ciência. Acho muito interessante trazermos a perspetiva dos cientistas à nossa audiência”, revela. E foi assim que, em novembro de 2023, o Azul foi distinguido como melhor podcast na categoria de Ciência, Tecnologia e Educação, na 5ª edição dos prémios Podes, que são dedicados aos melhores podcasts portugueses. “É sempre bom ver o nosso trabalho a ser reconhecido. Mas sei que podemos chegar mais longe”, admite. O público reagiu com entusiasmo ao fim da palestra de Aline Flor. Mas afinal que papel desempenha o podcast e na sensibilização da sociedade para as questões climáticas? A editora do Azul assume: “Pretendo oferecer aos ouvintes uma nova perspetiva relativamente a este problema.”


Aline Flor: A voz da mudança

Chegou ao Público em 2017 para integrar a equipa de áudio, na qual produziu podcasts em áreas tão diversas como a igualdade de género e as questões europeias. Em 2022, quando o Azul foi criado, integrava a equipa de produção a nível técnico. Hoje, faz muito mais. Conta com cerca de 50 episódios de um podcast da sua autoria e é ela quem conduz e realiza a maioria das entrevistas.

Aline Flor tem como objetivo abrir espaço para uma conversa: “Quero que os ouvintes sejam capazes de fazer as suas próprias perguntas. Não lhes digo o que pensar, digo-lhes em que pensar.” Enquanto jornalista, pretende dar visibilidade a “um tema muitas vezes esquecido e desvalorizado”. A editora do Azul desafia o seu público a duvidar da ação do Governo, das empresas, das juntas de freguesia e das câmaras municipais. No fundo, diz, “das pessoas que têm responsabilidade de encontrar soluções, mas que não as arranjam”. Relativamente a planos futuros, Aline Flor revela que gostaria que o podcast Azul fosse semanal: “Assim, as pessoas ouviam com mais frequência e tornava-se num ritual.” 

Por fim, a jovem jornalista apela ao otimismo, à responsabilidade individual e à mudança: “Vejo como um privilégio estarmos nesta altura da vida humana na Terra, em que ainda podemos – sabendo o caminho a percorrer – tentar mudar o rumo e alterar o nosso destino.”

Alunas do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)

Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso

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