Os refugiados e os média: “uma palestra tem o poder de mudar o mundo”

Num mundo em que a realidade é moldada por agendas políticas e mediáticas, a problemática da migração surge como um exemplo gritante de que a veracidade dos factos é, muitas das vezes, omitida. George Pleios, professor e investigador da Universidade de Atenas, alertou para os rótulos enganosos que em torno dos refugiados.

A Escola Superior de Comunicação Social acolheu, no dia 6 de março, às 9 horas da manhã, o seminário “Jornalismo Climático na Universidade”, em parceria com a Oslo Metropolitan University. Um dos convidados de honra foi George Pleios, professor da Universidade de Atenas, que se apresentou bem-disposto para dar início a uma das últimas palestras do evento. É diretor do Laboratório Social de Investigação de Mass Media e assume-se como especialista nos fluxos migratórios que, hoje em dia, marcam o mundo.

George Pleios começou por caracterizar os refugiados. A partir do exemplo dos migrantes sírios, traçou-se o perfil sociodemográfico das populações migrantes difundidas pelo mundo: “Como podemos observar pelo gráfico, a maioria dos refugiados sírios encontra-se numa faixa etária entre os 15 e os 34 anos, logo trata-se de uma população jovem.” A larga maioria dos indivíduos que integra os fluxos migratórios é forçada a deixar os países de origem devido às consequências das alterações climáticas, à presença de conflitos violentos ou da guerra que aí se faz sentir. O continente europeu torna-se o destino de eleição, uma vez que a maioria dos refugiados é portador de ascendência africana ou asiática: “Entre as principais portas de entrada europeias estão a Espanha, a Grécia e a Itália.” Os refugiados veem na Europa a esperança de conseguirem atingir a segurança e a qualidade de vida que lhes é escassa nos locais de origem: mas nem tudo o que parece é.

Narrativas tendenciosas

O professor revelou que “os órgãos de comunicação social assumem um importante papel na formatação da opinião pública”. O lado negativo desta vertente influenciadora dos média é que “estes apenas realizam uma cobertura dos acontecimentos de acordo com os seus interesses”. O objetivo não é transmitir a realidade daquilo que se passa no mundo, mas sim distorcer essa realidade em favorecimento de um maior número de audiências. “Os média não expressam factos, mas sim visualizações sobre os factos”, referiu George Pleios.

A forma como os fluxos migratórios são reportados é, segundo o investigador grego, o exemplo latente da vertente sensacionalista dos órgãos de comunicação social. “Os média retiram proveito de uma narrativa política padronizada para retratar os refugiados como uma ameaça à saúde pública, à economia e à segurança das nações europeias”. A difusão de uma ideia preconcebida de que os refugiados constituem um atentado à identidade cultural e religiosa leva a que sejam vistos como inimigos para quem habita na Europa: “A sua chegada não é bem aceite pelos povos residentes.”

A cobertura mediática que é realizada em torno dos fluxos migratórios, ainda que discriminatória, constitui vários benefícios para os governos europeus. Como denunciou o professor da Universidade de Atenas, “para o Ocidente torna-se fundamental que os jornais, as televisões e até a internet transmitam a sensação de que os refugiados representam uma ameaça à defesa dos princípios democráticos”. Tal posição é justificada, uma vez que o Estado é o mais interessado em reduzir os encargos financeiros, despesas que teria ao sustentar os migrantes recém-chegados: “Quanto menos refugiados, menores são os gastos para os governos europeus.”

Ambições políticas

Os interesses estatais não passam – acredita o professor – “por financiar uma boa qualidade de vida às populações migrantes, mas sim por se salvaguardarem dessas responsabilidades”. Como esclareceu:“É por essa razão que as instâncias governativas exercem uma grande pressão sobre os média.” São os governos europeus que permitem que os órgãos de comunicação social tenham uma postura tendenciosa em relação à chegada de refugiados: “Os estados incentivam a que os média consigam incutir nas populações o ódio, o racismo e a xenofobia através de uma cobertura ensaiada que realizam dos movimentos migratórios.” A narrativa implementada pelos governos e que é partilhada pelos meios de comunicação permite que os dirigentes políticos tenham as populações do seu lado: “O povo passa a partilhar os mesmos interesses que o Estado.”

As conclusões das pesquisas desenvolvidas por George Pleios indiciam que as posições controversas dos governos europeus também advêm do crescimento da extrema-direita. Os movimentos extremistas utilizaram o tema da migração como uma fonte de ódio para crescer entre o eleitorado um pouco por toda a Europa. George Pleios expôs algumas das técnicas usadas: “Em 2014 e 2015, líderes de movimentos extremistas de direita, na Grécia, foram vistos entre os corpos de ajuda aos refugiados no país.” O professor sublinhou que este movimento propagandista foi fulcral para mostrar um lado humanista destes partidos e, mais tarde, ajudar a criar bases para os seus argumentos anti-imigração: “Aos dias de hoje, os mesmos que ajudaram as primeiras vagas de refugiados estão na televisão a criticá-los.” George Pleios alertou para a estrutura fundamentada que os movimentos racistas e xenófobos usaram para fazer passar a sua mensagem e crescer entre a população europeia.

Migração climática

O mundo encontra-se em constante mutação, o que faz com que a designação de “refugiado” não seja apenas aplicada a quem é perseguido por causa da raça, religião e nacionalidade, que lhes são características, ou pelo facto de pertencerem a um determinado grupo social e político. George Pleios lembrou que as pessoas não migram apenas por questões políticas e sociais: “As migrações motivadas pelas alterações climáticas são muito significativas e estão relacionadas com a desertificação, as secas e a subida do nível do mar.” O termo “refugiado climático” não poderia ser mais atual. De acordo com os dados da ONU, no mundo, existem cerca de 21 milhões de indivíduos nesta condição. Se o número já parece elevado, a previsão para os próximos anos é, de facto, preocupante. “Estima-se que, possivelmente, existirão cerca de 200 milhões de refugiados climáticos”, esclareceu George Pleios.

A lei internacional, que estabelece a condição de refugiado, não tem uma definição que permita englobar os cidadãos que são forçados a migrar devido às alterações climáticas. Como citou o diretor do Laboratório Social de Investigação de Mass Media: “Refugiados são pessoas que fugiram dos países de origem para escapar de situações conflituosas, violentas ou de perseguição, e que procuram segurança em outras nações.” Para incluir os refugiados climáticos na definição, esta necessita de ser reformulada “urgentemente”: “Só assim é que todos os refugiados poderão usufruir dos mesmos direitos e, consequentemente, da mesma proteção que lhes deve ser prestada.” O apoio estatal de asilo torna-se, por esta razão, desigual. A perseguição social ou religiosa dos povos, do ponto de vista legal, é prioritária face à situação dos refugiados climáticos. George Pleios revelou a razão pela qual o novo termo não é aceite pelas nações: “Se os governos europeus o reconhecerem, do ponto de vista jurídico, mais indivíduos se inserem nesta condição, o que obriga o Estado a acolher um maior número de refugiados, aumentando o número de despesas estatais.”

A palestra de George Pleios evidenciou as complexidades que se encontram subjacentes aos atuais fluxos migratórios: “Os refugiados são engolidos pelo poder político que, juntamente com os média, promovem uma ideia distorcida acerca da realidade das populações migrantes. É a procura incessante por audiências que permite que os meios de comunicação social se compatibilizem com os interesses económicos dos estados europeus.”

O discurso do especialista grego serviu para expor a ligação, despercebida aos olhos do público, que se verifica entre os média e os refugiados. Aquela que considera ser “uma relação de carácter aproveitador pode – acredita – no futuro, traduzir-se numa ligação de entreajuda em que os verdadeiros factos são apurados, não mais subjugados à custa da burocracia”. E encerrou a intervenção com um apelo aos mais jovens: “É necessário que os futuros jornalistas, aqui presentes, se apercebam de que uma palavra tem o poder de mudar o mundo.”

Alunos do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)

Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso

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