Futuros jornalistas aprendem a noticiar as alterações climáticas de forma atrativa com os conselhos de Aline Flor, editora do projeto Azul, do Público. A jornalista esclareceu ainda algumas dúvidas colocadas pelos estudantes
No ano de 2021, perderam-se cerca de 25 milhões de hectares de área verde. Em 2022, registou-se o período de maior seca na Europa, nos últimos 500 anos. “O mundo vai acabar!”. São estas as razões pelas quais o tema das alterações climáticas é, nos dias de hoje, um tabu. Aline Flor, jornalista do Público, mostra uma outra perspetiva sobre a temática, na intervenção “Azul: trazer as alterações climáticas para o dia a dia”, que decorreu no âmbito do seminário “Climatic Journalism goes to the University”, a 6 de março, na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Estiveram ainda presentes outras referências deste panorama, tais como Ricardo Garcia e Miguel Prado. O programa teve início às nove da manhã e terminou às 16h30 min.
Com raízes cariocas, mas residente em Portugal há mais de 25 anos, a jovem do Porto é uma das principais figuras responsáveis pelo projeto Azul, secção do jornal português direcionada para assuntos sobre o ambiente, a sustentabilidade e a crise climática. Em cerca de hora e meia, a jornalista abordou tópicos tão diversos como as estratégias de comunicação, as medidas a serem tomadas de forma a melhorar a crise climática, as aprendizagens e as diferentes formas de interpretar os movimentos ativistas.
A editora do Azul começou por explicar que, quando se publicam notícias, não são destinadas a uma, mas a várias audiências. “O uso de termos científicos e mais específicos afastam as pessoas, o que diverge daquele que é o objetivo do jornalismo: informar a população”, referiu. Aline Flor recorreu a um gráfico para mostrar aos alunos do 1º ano de Jornalismo que grande parte da população revela uma certa ignorância face a este tema ou simplesmente opta por ignorá-lo. “As pessoas não se interessam com títulos a dizer “COP28 …”. Os títulos das notícias de hoje em dia são a preto e branco.”
A jornalista considera que a abordagem do jornalismo atual, no âmbito climático, não é a mais adequada. Nesse sentido, como possíveis saídas os conteúdos multimédia, mais explicativos, podcasts, infografias e o uso de uma linguagem mais inteligível. Aline Flor defendeu também que se deve trabalhar numa relação de proximidade entre o jornalista e as audiências: “As pessoas querem ser convidadas e ouvidas especificamente.”
Debate climático
Face a uma pergunta colocada no decorrer do seminário relativamente às medidas que deveriam ser implementadas pelo Governo para travar a crise climática, Aline Flor sugeriu “reduzir as emissões de dióxido de carbono, principais responsáveis por problemas como o aquecimento global e as acidificações dos oceanos e também prejudicial para a saúde humana; a aposta em recursos naturais, oriundos de restos orgânicos de animais e plantas – os combustíveis fósseis – e, por último, o investimento nas energias renováveis, como a solar, eólica e hidroelétrica”.
A jovem jornalista teceu ainda alguns comentários sobre a disposição das alterações climáticas pelas diferentes áreas do jornalismo e o protagonismo que desempenham no cenário atual. Aline Flor defendeu que “todas as secções dos noticiários deveriam cobrir as questões climáticas. É um assunto urgente e de importante conhecimento para a população e que deveria ser feita a integração deste tópico numa base diária”.
Nos dias de hoje, fruto do ritmo frenético dos assuntos da atualidade, os formatos mais pensados e longos do jornalismo, como a reportagem, são, na experiência de Aline Flor, “as principais vítimas”. De acordo com a responsável pelo Azul, “os temas já não são tratados em profundidade, adquirindo um carácter de efemeridade e prejudicando os leitores/espectadores naquele que é o cerne do verdadeiro conhecimento de assuntos como o ambiente e a sustentabilidade”.
A terminar a sessão, a jornalista do Público criticou a discriminação de que os ativistas são alvo, principalmente em períodos de campanha eleitoral: “O foco não deveria estar nos atos, mas sim na mensagem que quer ser transmitida.”
Alunos do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso