A moda é uma das indústrias mais poluentes do mundo, mas existem iniciativas, tendências e marcas que estão empenhadas em alterar esta realidade. É o caso da ModaLisboa. Em cada edição, as preocupações ecológicas e de sustentabilidade parecem estar cada vez mais presentes na organização do evento
À medida que os holofotes apontam para a capital portuguesa para mais uma edição da ModaLisboa, surge uma nova oportunidade para refletir sobre o papel da moda na preservação do meio ambiente e na promoção de práticas mais conscientes e éticas. Organizada desde 1991 pela Associação ModaLisboa e pela Câmara Municipal de Lisboa, ir ao encontro de tendências de moda amigas do ambiente tem sido uma preocupação cada vez mais evidente, nos últimos anos. A 61ª edição, que decorreu em outubro de 2023, não foi exceção.
Quem chega ao Pátio da Galé percebe que existem duas portas com acesso a realidades distintas. Na principal, o visitante tem a oportunidade de apreciar os desfiles e ser contagiado pelo glamour do ambiente envolvente. Se conseguir pôr um pé nos bastidores, irá sentir a azáfama e o entusiasmo dos designers a finalizarem os últimos ajustes nas roupas; os cabeleireiros e os maquilhadores a trabalharem para garantir que tudo corra na perfeição. O burburinho transmite a emoção dos preparativos e o desejo de fazer acontecer arte em cada movimento dado pelas modelos na passerelle. Uma coisa é certa: em ambas as portas a preocupação com o ambiente surge lado a lado com a cultura e a com a moda.
A organização do evento garante que há muito passaram das palavras aos atos, nesta tentativa de aliar a promoção da moda nacional à sustentabilidade. “O assunto não é apenas tema das conversas. Há medidas concretas e estamos numa fase mais desenvolvida do processo. Por exemplo, reciclamos e reutilizamos os materiais utilizados e tentamos evitar o uso de plástico”, explica Eduarda Abbondanza, diretora da ModaLisboa.
Os designers aliaram-se a empresas para a criação de produtos ecológicos, com destaque para os criadores Ana Duarte, Ricardo Andrez, Dino Alves e Carlos Gil, assim como para as marcas Buzina e Béhen. A estas referências juntam-se os estilistas mais jovens, no Sangue Novo, um projeto que apoia os novos designers do país. Como revela Ana Duarte, criadora da marca: “Na Duartehajime, procuramos uma maior durabilidade, práticas de trabalho justas, materiais reciclados e, evidentemente, zero desperdícios.” As caixas de cartão mais pequenas vieram substituir os sacos de polietileno, apareceram os recipientes de papel e as ilustrações feitas à mão.
Os infinitos corredores e as salas existentes são preenchidos com vários postos de trabalho, todos com o objetivo de contribuir para um mundo melhor. As fardas do staff são confecionadas de material reciclado, tal como as centenas de credenciais distribuídas por todos os que tornam este evento real.
A equipa de preparação dos modelos, constituída por Antónia Rosa e Helena Vaz Pereira, mostra que, para preparação dos modelos, os produtos biológicos e vegan são a preferência quando chega a hora de maquilhar os rostos da edição.” As maquilhadoras sublinham que “apesar de a preocupação com a sustentabilidade ainda ser um nicho no mundo da beleza, a aliança com produtos biológicos e vegan é um passo nesse sentido”.
A aposta na moda circular
Em 2023, o programa de inovação é o beat by be@t, criado pelo BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. “Através desta iniciativa pretendemos estimular a criatividade para o design ecológico e a engenharia ecológica na indústria têxtil e da moda, em Portugal”, afirma Eduarda Abbondazza. O programa deste ano aposta na moda circular. Como esclarece Luís Pereira, diretor dos bastidores: “A indústria têxtil e de vestuário portuguesa procura criar um sistema de circuito fechado em que as peças de vestuário são confecionadas para alcançar a longevidade, reparabilidade e reciclabilidade, de forma a promover uma abordagem mais responsável.”
Na conversa com vários nomes da indústria nas FastTalks, um dos extras do evento, surgiram várias temáticas, entre as quais a relação entre a sustentabilidade e a moda. Para César Araújo, CEO da Calvelex, a mudança verde no mundo da moda encontra-se a dar os primeiros passos: “É um processo que se vai fazendo aos poucos. Não se pode dizer que seja uma realidade concreta, mas também não é justo dizer que não existe de todo.” O diretor executivo revela que a União Europeia vai exigir, em 2028, que toda a indústria de moda produza roupas com produtos reciclados. “Apesar de ainda não ser possível exigir isso a todos, estão a criar medidas e incentivos para que essa exigência seja cumprida a tempo”, assegura.
Se é verdade que o processo ainda está longe do necessário, os resultados já são visíveis. A este nível, destacam-se a Duartehajime e a Buzina, que têm empreendido esforços para se posicionar na vanguarda da sustentabilidade. Estas marcas estão a redefinir o conceito de elegância, incorporando, como explica a fundadora da Duartejagime, Ana Duarte, “uma consciência ambiental em cada etapa do processo criativo”. E justifica: “A moda não é de todo sustentável, mas temos de tentar mudar esse pensamento. Acho super importante falarmos de sustentabilidade.” Ana Duarte confirma ainda que “os materiais utilizados são orgânicos reciclados e certificados. Variam entre algodão orgânico, poliéster reciclado, lã e neoprene a Bemberg™”. Vera Fernandes resume o conceito da Buzina, fundada em 2016: “Somos uma marca nacional que produz 90% das peças a partir de tecidos excedentes de várias fábricas.”
Olhos postos na moda sustentável no mundo
Portugal observa de perto os países onde a moda sustentável também começou a ser uma realidade. Copenhaga Fashion Week serve como inspiração e revela outras formas de proceder. Na semana da moda, os designers participantes tiveram que cumprir 18 requisitos específicos de sustentabilidade para conseguirem participar. Entre os quais surge a obrigatoriedade de metade das roupas desfiladas ser confecionada com materiais mais sustentáveis e as marcas utilizarem as plataformas para educar e informar os clientes sobre os objetivos e práticas da sustentabilidade.
Pioneira no mundo da moda, França conta com diversos designers focados em mudar mentalidades. É o caso da pioneira Stella McCartney, diretora criativa da Chloé e de muitas outras marcas com as quais já trabalhou. Como líder na alta moda sustentável, a estilista começou a estar presente na Paris Fashion Week. A designer apresentou diversas peças que, à primeira vista, poderiam ser confundidas com couro, pelos e peles exóticas, mas, na verdade, Stella McCartney recriou essas texturas com a utilização de materiais recicláveis e sustentáveis, como o couro de cogumelos, até tecidos à base de maçãs.
A sustentabilidade e a preocupação com o ambiente, constituem, atualmente, um dos tópicos mais falados e mais pensados. Nos bastidores, mas também no meio do público da Moda Lisboa, todos parecem ter algo a fazer e a dizer. “No meio de tudo e apesar de ainda ser um nicho, a moda em Portugal traça o seu caminho ao encontro da sustentabilidade. Cresce e torna-se cada vez mais uma referência mundial”, refere Alice Alavedra, uma das voluntárias do evento. A ModaLisboa promete continuar a consciencializar e dar o mote para o início de uma era ecológica.