Jornalismo climático: abordagens positivas para atrair o público

Num dia atípico dedicado ao jornalismo e ao clima, Ricardo Garcia partilhou os estudos que tem desenvolvido e revelou alguns segredos para cativar os leitores quando se escreve sobre o tema. Curiosamente, o pioneiro português nesta área confidenciou que a expressão “alterações climáticas” deve ser evitada

De câmara em punho e caderno sobre a mesa, estudantes tiveram a oportunidade de conhecer a realidade do jornalismo ambiental e as questões das alterações climáticas. Realizado na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), no dia 6 de março, o seminário “Jornalismo Climático na Universidade” foi preenchido de palestras e debates sobre o clima. A iniciativa contou com a presença de investigadores e jornalistas portugueses e internacionais.   

A primeira das seis intervenções apresentadas no seminário foi dirigida por Ricardo Garcia, um jornalista de nacionalidade brasileira que ingressou no jornalismo em Portugal, aos 25 anos, no Público, e que se foca essencialmente no ambiente, no clima e no jornalismo de dados. Foi em Londres, na Universidade de Oxford, que tirou o mestrado e se tornou um dos precursores do jornalismo ambiental em Portugal. Durante o seminário, o jornalista guiou os alunos numa linha temporal desde 1988 até aos dias de hoje. As alterações climáticas e a evolução do papel do jornalismo ambiental foram o tema principal. 

Com recurso a gráficos, tabelas, imagens e vídeos, Ricardo Garcia lembrou que 1988 foi o ano mais quente alguma vez registado. Ao longo deste ano, revelou o jornalista, “as alterações climáticas foram tema das primeiras páginas da comunicação social e levaram os cientistas a ter um olhar mais atento sobre as mudanças ambientais”. Em 1990, Ricardo Garcia publicou o primeiro artigo relacionado com o combate ao efeito de estufa. 

O jornalista sublinhou que para abordar um assunto como este “é fundamental investigar e estar informado”, realçando ainda a importância do “active learning”.  Como esclareceu: “Este modo de vida baseia-se na necessidade de estar atento ao que nos rodeia e de procurar em diversas fontes sobre o objeto de estudo.”

De modo a analisar a evolução das alterações climáticas ao longo dos anos, o antigo repórter do Público apresentou um gráfico que mostra a cobertura dos jornais sobre a mudança climática e o aquecimento global, desde 2005 até a atualidade. Ricardo Garcia relacionou também os dados divulgados com o impacto das mudanças económicas. Os picos do gráfico indicam as alturas em que foi publicado o maior número de notícias relacionadas com as alterações climáticas, tal como aconteceu quando ocorreram as COP’s (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) ou nos discursos da ativista ambiental Greta Thunberg. Os pontos mais baixos representam os anos em que o clima obteve menos atenção por parte da comunicação social, devido, por exemplo, à Covid-19, em 2020, e à guerra na Ucrânia, em 2022. 

Oportunidades de aprendizagem

Para que as notícias e artigos sobre alterações climáticas tenham impacto no leitor, Ricardo Garcia desaconselhou o uso da expressão “alterações climáticas”: “Arranjem outra forma de o dizer, digam-no por outras palavras, mas nunca recorram a essa expressão, uma vez que isso não cativa o leitor.” O jornalista referiu ainda que “a melhor altura para reverter os problemas associados às mudanças climáticas é quando as questões ambientais não estão a ser faladas, nem são tema de debate”.

Considerado um dos pioneiros nesta área em Portugal, Ricardo Garcia defendeu que “é necessária uma inovação nas notícias, uma vez que estas se repetem no conteúdo e, assim sendo, deixa de existir novidade para o leitor. Deste modo, a população revela um fraco interesse nestes temas por considerar não existirem soluções acessíveis e por parecer estar a acontecer numa realidade distante, difícil de mudar”.

O também autor do livro Sobre a Terra – Um Guia para Quem Lê e Escreve sobre Ambiente revelou algumas técnicas narrativas para cativar o leitor: “As histórias climáticas devem focar-se em assuntos de proximidade, atuais, relacionadas com a vida quotidiana, inspiracionais e motivacionais, que toquem o leitor de uma forma mais pessoal. É importante que as histórias sejam informativas, mas têm de ser, essencialmente, acessíveis. Assim, o leitor poderá relacionar o tema com a sua realidade e interessar-se mais pelo assunto.”

Apesar deste desinteresse por parte da população, Ricardo Garcia avançou, a encerrar a intervenção, que existem razões para o otimismo: “Estão a ser desenvolvidas estratégias de cobertura climática, continuam a surgir abordagens diferentes e inovadoras e ainda se investe na sustentabilidade. Para além disso, as comunidades transfronteiriças têm permitido a troca de ideias e a inovação, além de que tem sido possível criar oportunidades de aprendizagem. As novas tecnologias e a grande quantidade de fontes de dados permitem-nos também continuar esperançosos.”  

 Alunas do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)

Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso  

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