
Muito poucas vozes têm o poder de ser tão facilmente identificáveis como a de Eduardo Rêgo. De pais para filhos, ouvintes de diversas gerações conhecem o timbre único de “Vida Selvagem” e “O Nosso Mundo”. Depois de mais de 30 anos a dar vida a documentários sobre a natureza, o locutor defende que chegou a hora de dar um murro na mesa, em defesa da Terra, antes que seja tarde demais. Loving the Planet é o grito de alerta da voz por trás da televisão
Ao longo das décadas, Eduardo Rêgo tornou-se uma referência no universo da rádio e da televisão nacionais. O talento singular para dar vida às palavras e captar a atenção dos ouvintes destacou-se logo nos primeiros tempos na Renascença, no final da década de 70. Nesta altura, o jovem estudante tinha trocado a licenciatura em Teologia e os onze anos no seminário pelos microfones da rádio. No entanto, foi quando passou a dar voz aos documentários “BBC Vida Selvagem”, primeiro na RTP e depois na SIC, que descobriu a sua verdadeira missão. Passadas mais de três décadas, todos os domingos de manhã perto da hora do almoço, os espectadores da SIC continuam a viajar para os mais diversos habitats naturais com a locução carismática de Eduardo Rêgo.
Neste programa, o ambientalista convicto não revela apenas os mistérios da natureza, como também partilha a paixão pela vida selvagem e pela preservação dos ecossistemas. Como acredita: “Cada episódio é uma oportunidade não só para educar, mas também para inspirar as pessoas a apreciar e proteger o mundo que nos rodeia.”
Consciente da importância de mudar mentalidades, em 2018, Eduardo Rêgo criou a organização Loving the Planet, projeto que nasceu depois de organizar um ciclo de conferências sobre ambiente, na Universidade do Porto. Com esta iniciativa global, a Voz do Ano, como tantas vezes foi considerada, quer alertar para a urgência de cuidar do planeta e preservar os recursos naturais para as gerações futuras. O projeto Loving the Planet trata da última fronteira do ser humano: a emoção”, defende.
Em quase 50 anos de carreira como locutor, como é que surgiu a preocupação com o ambiente?
É algo meu. Estive na rádio Renascença em 1978. Nesta altura, pós 25 de Abril, surgiu a oportunidade de ensinar universitários que estavam cheios de vontade e liberdade na cabeça e, neste caminho, entrou a própria RFM. Andei pela Europa a arranjar dinheiro para fazermos uma onda curta. Antes de chegar a este ponto de maturação, há sempre muito caminho já calcorreado. Nesse tempo, já tinha essa preocupação, só que andava sempre a desejar que toda a minha maneira de articular e de impactar a mensagem fosse de outro nível. Quando cheguei ao contexto da natureza, da “Vida Selvagem”, abriram-se os portões do céu.
O que representou a locução do programa “BBC Vida Selvagem”, que estreou primeiro na RTP e depois, com o aparecimento das televisões privadas, passou para a SIC, na trajetória da sua carreira?
A circunstância mais feliz da minha vida foi ir parar ao programa. Talvez as pessoas não saibam, mas a versão portuguesa é a mais bem conseguida do mundo. E porquê? As imagens podem ser as mesmas, mas o conteúdo é muito mais bonito, muito mais rico. Sinto que criei um estilo novo. A própria gravação continua a ser realizada no meu estúdio. Um dia, alguém me disse que eu era a única pessoa capaz de encontrar romantismo na relação dos escaravelhos, no acasalamento. Às vezes, sorrio na própria locução e é isso que encanta as pessoas.
Acredita que se não fizesse locução da “Vida Selvagem”, teria a inspiração para criar a associação Loving the Planet?
Depois de tanto tempo de locução, achei que estava na hora de dar um salto qualquer, sem medo. O projeto Loving the Planet trata da última fronteira do ser humano: a emoção. Estamos a perder este potencial incrível que o coração do ser humano tem de se encantar, de se enamorar das belezas do mundo. Acredito que este projeto é a única saída para chegarmos a um equilíbrio. Estamos a viver num autêntico rebanho e é preciso sair dele para tomar consciência. Quando vivemos numa ilha, não temos a noção de que aquilo é uma ilha. Precisamos de nos afastar dela para dizer “uau, eu vivia ali naquele bocadinho de terra?”
O que distingue a associação que criou em 2018 de outras congéneres?
É global e promove a energia do planeta na expectativa de travar as agressões à natureza e ao clima. Portanto, primeiro o Homem e depois a ação em que tudo se resolve. Não nos submetemos ao escrutínio desta sociedade, sociedade palavrosa e pobre de conteúdos. Não entramos em debates nem manifestações. Fugimos do rebanho para dar voz à consciência.
Na sua opinião, as manifestações em defesa do ambiente causam efeito ou não são a maneira certa de agir?
Não são a maneira certa. Depois de muito pensar, não é a maneira certa.
Qual é a maneira certa?
Com gestos simples, mas práticos. Por exemplo, toda a gente fala na carência de água, mas ninguém faz nada para resolver o problema. Vejam o desperdício de água quando estamos a lavar os dentes. A Loving the Planet criou uma solução: um copo, uma bolinha, que cabe na mão de uma criança e tem uma linha do equilíbrio ou do Equador. É uma bola que representa o planeta. É formada por duas partes e pede-se às criancinhas que deitem água só até à linha do Equador e fechem imediatamente a torneira. Com este copo, elas conseguem fazê-lo. Num dos testes, houve uma criança que disse, toda sorridente: “E ainda consegui com menos!”. É a consciência de que, se quiser, tem o mundo na mão.
Na sua perspetiva, qual é o problema mais preocupante que assola o planeta?
É um planeta sem foco naquilo que é essencial, onde prolifera o excesso do que se come, do que se veste e na ganância doentia de ter tudo com a ilusão de que isso traz felicidade. Não há nenhum programa, movimento ou associação que tenha este discurso. Focam-se cada vez mais na plantinha, mas eu deixo as plantinhas serem elas próprias. Einstein avisou: “Um dia, a tecnologia irá matar a interação humana e surgirá uma sociedade de loucos.” Isto já acontece num restaurante onde vemos uma família inteira no telemóvel, ao invés de conversarem uns com os outros. Estamos a caminhar para a falência do sistema. E pergunto: quem é o sistema? Não somos nós?
Considera que os poderes político e económico estão pouco sensíveis para as questões do declínio ambiental?
O real problema é não conhecerem a Loving the Planet (risos). Quando perceberem a importância daquilo que ando a pregar, as pessoas vão começar a mudar. Há uns anos, fui convidado para secretário de Estado. E na noite em que tinha de responder sim ou não, telefonei para amigos, colegas, professores das universidades e um deles disse: “Faz muito mais com este projeto do que se fosse para o Governo, qualquer governo fica aquém disso.”
Ou num dos prémios que recebi em Hollywood, em que no final do meu discurso disse “Let’s be human kind again”. Esta simples mensagem recebeu muitos aplausos. Falta gente para dizer estas coisas com emoção.
Como é que a Loving the Planet consegue mobilizar recursos financeiros para sustentar as iniciativas?
Quando o projeto nasceu, era necessário arranjar um local condigno que servisse de sede. Algumas autarquias apressaram-se a prometer apoio, mas nenhuma cumpriu a promessa. Estávamos em plena pandemia e já não me lembro de quantos telefonemas fiz, nem isso é o mais importante. Aquilo que verdadeiramente interessa foram as inúmeras portas que se abriram para dotar o nosso espaço como: pedra para o chão, portas, janelas, móveis e equipamento para trabalharmos (televisões, computadores, etc).
Neste âmbito é justo referir que a Fnac foi a empresa que mais ajudou e continua a fazê-lo monetariamente com uma percentagem dos sacos de papel que vende nas lojas. O seu programa “Restart”, com o objetivo de incentivar o ser humano a optar por escolhas de consumo mais sustentáveis, incentivando à economia circular, também ajudou.
Outra via de financiamento é aquela que resulta da assinatura da ficha de amigo ou “friend form” e cujo montante está em linha com o protocolo de Quioto, convidando as pessoas a contribuir com 30 euros para desagravar a pegada carbónica de uma tonelada de CO2, das seis toneladas que cada um de nós produz anualmente e que tanto penaliza a atmosfera. Isto pode ser preenchido no nosso site https://lovingtheplanet.org/.
Um santuário como utopia
O que difere a sua ideia da ONG Earth Alliance, de Leonardo DiCaprio?
Gosto muito do DiCaprio e, neste contexto, do seu documentário “Before the Flow”, que inicia com a imagem do quadro de Bosch, “O Jardim das Delícias Terrenas”. No entanto, ele tem, como quase todos os que navegam no mar dos interesses, telhados de vidro: são gente querida, mas depois questionamo-nos o porquê de ganharem tanto dinheiro para dizerem meras frases. Se tivesse a mesma visibilidade, diria muito mais do que ele, que qualquer um deles.
E sente alguma proximidade com a missão de David Attenborough, autor do documentário “Uma Vida no Nosso Planeta” (Our Planet), disponível na Netflix?
O David é extraordinário, mas não consegue dar uns murros na mesa, ao contrário de mim: “Ou esta porcaria muda ou vocês são fritos!”. Ele não consegue dizer isto.
Além do copo Loving the Planet, que outros projetos estão a desenvolver?
Queremos combater as inúmeras agressões do ser humano à natureza e ao clima. Desenvolvemos diversas ações junto das escolas, documentários e, sobretudo, temos idealizada a construção de um edifício único, a que chamo de Santuário. Toda a ideia já está desenhada. Só falta meios financeiros. Assim que falei deste projeto à Câmara Municipal de Lisboa ouvi: “Uau! Isto é incrível”.
Qual é a história por detrás desse edifício e que características possui?
O edifício que quero construir é o palco da partilha da humanidade e da celebração da vida. Não haverá nada igual, por mais que tentem. Vai haver uma folha gigante a andar à sua volta, ao longo das 24 horas e muito devagarinho. Cada vez que passa num meridiano, todos os países daquele meridiano se iluminam e todos são abraçados pela mesma magia. Além disso, é feito com placas fotovoltaicas para tornar o edifício autossustentável. Esta ideia de consciência global está sempre presente.
Porque é que o chamou de Santuário?
Porque é a palavra mais rica que encontramos na natureza. Deve-se justamente à espiritualidade humana, isto é, a capacidade de interiorizar valores. Quando falamos em espiritualidade, temos a mania de transportar logo para a religião, mas não. O santuário é maior do que isso. Vêm pessoas de todas as partes do mundo observar um grande ecrã com tecnologia que coloca em contacto, equipas de vários países, que andam a fazer alguma coisa para o equilíbrio. Vamos ligar aos povos que vivem em guerra, onde haja alguém com alma grande que possa falar. Temos de acabar com quem lidera, com quem manda e com quem faz guerra.
Acredita na ideia de que Portugal fica atrás na realização destes grandes projetos em relação aos outros países da Europa?
Claro que não. Portugal é o país mais amado do mundo e andamos aqui a achar que não nos mexemos. Estendemos muito a mão aos subsídios na Europa, mas temos capacidade para fazer isto e muito mais.
Qual das gerações é que considera ser a mais fácil de fazer ver a urgência deste tema?
Acho que a mais jovem. Privilegio as conferências nas universidades por isso mesmo. Os jovens estão a entrar no túnel para amanhã. Serão diretores executivos das empresas, políticos…vão comandar o mundo.
E o futuro? O que deseja que seja feito dele?
Quanto ao futuro, temos o sonho de, obviamente, chegar o mais longe possível. Não basta ouvirmos de altas instâncias que a Loving the Planet tem a semente de um tempo novo. Precisamos urgentemente de receber ajuda da parte dos jovens, com o seu voluntariado. Precisamos da ajuda do Governo e das instituições com fundos que nos permitam alimentar e promover o subconsciente coletivo que anda tão desavindo. E precisamos da própria ONU, que apoia o rumo que protagonizamos para o equilíbrio no mundo.
Há alguma coisa que ainda falta concretizar?
Falta cumprir muita coisa, falta materializar aquilo que é verbalizado no recinto fechado dos nossos encontros de conveniência.
Por fim, qual é a mensagem mais urgente que quer passar?
Todos têm lugar à mesa do equilíbrio, da sustentabilidade. O problema está nos excessos e há alguns que não fazem sentido para mim, mas respeito. O equilíbrio nunca existirá se tombarmos o prato da balança para um dos lados. Criem esta disponibilidade interior. Foi assim que surgiu o meu sonho Loving the Planet. Estava na hora de dar um salto qualquer sem medo, mas ainda não viram nada, apenas a equação do início. Temos um programa brutal de felicidade, neste planeta, como nenhum outro. Está na hora de agir.
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Alunas do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Entrevista editada por Fátima Lopes Cardoso