No ano de maior número de eleições a nível mundial e de uma crescente crise climática, jornalistas como Clara Castelo, Miguel Prado, Rita Siza e Andreas Ytterstad destacam a importância de abordar estas questões com rigor e imparcialidade. Esta intervenção procurou influenciar decisões futuras e dar a conhecer os desafios da atualidade aos estudantes de Jornalismo
A crise climática e as eleições são temas cruciais na atualidade, mas nem sempre recebem a atenção merecida na cobertura jornalística. No seminário “Jornalismo climático vai à universidade”, que teve lugar no dia 6 de março, na Escola Superior de Comunicação Social, Clara Castelo, ex-jornalista na área do ambiente e atual consultora na especialidade, destacou a importância de garantir uma cobertura rigorosa das alterações climáticas. “Os jornalistas têm três desafios: colocar o tema na agenda, fazer a cobertura das alterações climáticas e a das eleições com prisma climático.” A especialista advertiu contra a “armadilha do populismo” e enfatizou que “os verdadeiros jornalistas servem o interesse público e informam de forma imparcial e rigorosa”.
Miguel Prado, jornalista na secção de Economia, do semanário Expresso, salientou a responsabilidade dos editores na determinação da agenda mediática. “A responsabilidade é, em primeira linha, dos editores. É evidente que os diretores e editores também são jornalistas, mas não se pode responsabilizar um jornalista de forma tão específica em relação à sua profissão.”
Na abordagem de temas como os protestos dos agricultores, Miguel Prado referiu que são implicações significativas na inflação e que refletem impactos, a longo prazo, nas decisões tomadas no presente. “Os impactos são muito mais a longo prazo do que imediatos. As decisões que tomamos hoje terão impacto no futuro.”
Por outro lado, Rita Siza, jornalista do Público, considera existir uma lacuna na cobertura jornalística especializada em energia e clima, durante as campanhas eleitorais: “Existe uma falta de respostas sobre a discussão das alterações climáticas. Uma campanha eleitoral tem uma lógica própria. Quem faz a cobertura são jornalistas de política e não especializados em energia e clima.” Carla Castela observou ainda que “o jornalismo político, muitas vezes, se concentra na atualidade política e que perde a oportunidade de abordar questões urgentes como as mudanças climáticas”. Como criticou: “Além da lógica da campanha, acabamos por dar importância à atualidade política. Com a discussão sobre as alterações climáticas e com a aproximação das eleições, não vemos respostas sobre esta mesma discussão.”
Andreas Ytterstad, professor de Jornalismo, na Universidade Metropolitana de Oslo, fez questão de atribuir responsabilidade aos jornalistas. “É difícil abordar este tema com as próximas eleições já à porta. Os assuntos populares podem superar questões como as mudanças climáticas, o que faz parecer com que isso não seja importante, o que é mentira, apenas não é falado de forma tão mediática”, considera.
Desta forma, a existência de desafios significativos na forma como os jornalistas abordam a crise climática e as eleições torna-se evidente. Na opinião dos intervenientes, é crucial que a imprensa assuma o papel de serviço público e que informe de forma objetiva, crítica e proativa sobre questões que moldarão o futuro das gerações.
A importância do jornalismo e da imprensa local
O jornalismo e, especificamente, a imprensa local desempenham um papel vital na divulgação de informações relevantes para as comunidades. Miguel Prado destacou a necessidade de incentivos por parte do Estado às autarquias para garantir uma imprensa de proximidade. O orador observou também que “as propostas dos partidos sobre o clima tendem a ser genéricas, mas os jornalistas têm o poder de questionar sobre detalhes mais específicos”. Além disso, Miguel Prado fez ainda uma referência ao jornalismo visual que, como argumentou, “impulsionado pelas redes sociais, tem um impacto significativo na forma como as histórias são interpretadas e partilhadas”.
Rita Siza revelou que o escrutínio em relação às questões locais compete mais aos média do que aos políticos. A jornalista ressaltou ainda os desafios únicos enfrentados pelo jornalismo local, em consequência do que descreveu como “natureza difusa da realidade local”, acrescentando que “os migrantes “não só estão a fugir da guerra como também estão a fugir das alterações climáticas”.
Clara Castelo incentivou os estudantes a trabalharem em equipa para abordar temas locais com rigor e precisão. “Enquanto jovens jornalistas, devem procurar sempre a colaboração com outros jornalistas para trocarem ideias e fontes, bem como para trabalharem cada tema com rigor e para informarem o público de forma fidedigna com ferramentas valiosas que podem surgir através dessa mesma colaboração.” A especialista destacou ainda a importância de “trazer histórias locais para o centro das atenções de forma a humanizar os temas e a envolver a comunidade”.
Miguel Prado sublinhou a importância de “gerir o jornalismo como um negócio para garantir a sua sustentabilidade financeira”, apelando à necessidade de escrever sobre assuntos locais que toquem na vida dos cidadãos: “Quando ao tema das alterações climáticas, é preciso humanizar este tópico através de pessoas e não de números com o objetivo de passar uma história real e humana, ao invés de uma imagem numérica.” O jornalista sugeriu ainda a especialização dos jornalistas em áreas específicas para aumentar a sua eficácia e promoveu o trabalho colaborativo como uma prática valiosa no jornalismo local: “Faz todo o sentido que os jornalistas procurem uma especialização e trabalhar e investigar o máximo possível nessa área. Tenho pena de apenas ter a licenciatura em Jornalismo na ESCS, mas sou apologista de que se deve seguir algo específico, de forma a que um jornalista seja mais valioso na área em que se formou e a sua especialização.”
Rita Siza acredita que as histórias sobre as alterações climáticas são intrinsecamente interessantes e que a maneira como são contadas é que as torna cativantes. A correspondente do Público destacou a importância de ler jornais e ter acesso à informação. “Os estudantes de jornalismo devem saber que é preciso consumir jornalismo e ter em conta vários fatores sobre o mundo jornalístico.”
A finalizar o debate, Andreas Ytterstad recorreu à visualidade para explicar qual a melhor maneira de cativar leitores para o tema das alterações climáticas. “É necessário atrair as pessoas pelo exterior, como se fosse o jardim de entrada de uma casa. Depois, levamo-las para as traseiras, que é o tema das alterações climáticas.”
Alunos do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso