Ao longo dos anos, a cobertura jornalística das questões ambientais tem evoluído, mas ainda enfrenta desafios significativos. A trajetória de Carla Castelo, ex-jornalista do ambiente, e a sua transição para a consultoria na mesma área oferecem uma perspetiva sobre a interseção entre os média e ambientalismo
Carla Castelo deu os primeiros passos no jornalismo em 1991, no jornal Público. Contudo, foi por influência do editor Ricardo Garcia que o interesse pelas questões ambientais floresceu. Em 1992, abraçou um novo desafio e fez parte da equipa pioneira que fundou a SIC. Em 2014, foi distinguida com o Prémio Nacional do Ambiente, atribuído pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente. A dedicação à defesa da integridade e a sua luta contra a corrupção valeram-lhe, em 2023, o prestigiado Prémio Tágides. Em 2019, decidiu sair da SIC e lançar-se de corpo e alma numa nova aventura, estabelecendo-se como consultora ambiental.
Considera que as redações em Portugal, particularmente a secção de Sociedade, priorizam as notícias sobre o ambiente?
Não. Dão prioridade a outras áreas como a saúde, a justiça e segurança. O ambiente faz as manchetes dos jornais apenas quando há situações disruptivas que causam prejuízo no quotidiano. Ora, não faz sentido, pois o ambiente está presente em todos os acontecimentos, seja direta ou indiretamente.
Quais são as fontes fidedignas para os jornalistas ao cobrir notícias relacionadas com o clima?
Há muitas fontes confiáveis. Contactar o gabinete da comunicação das universidades é sempre o mais seguro. O departamento do Instituto Português do Mar e da Atmosfera /(IPMA) também é uma opção fiável, mas tudo dependerá da história que se quer tratar.
Tal como o ativista Arlindo Consolado Marques, que ficou conhecido pelo “Guardião do Tejo”, haverá tantos outros empenhados na defesa do Ambiente. Cruzou-se com outros ativistas igualmente inspiradores?
Houve várias pessoas inspiradoras. Posso dar vários exemplos, mas há uma que merece especial destaque na defesa do ambiente. A bióloga marinha e cofundadora da Ocean Alive, Raquel Gaspar. Tem variadíssimos projetos como “Guardiões do Mar”, que alerta para a importância de os apanhadores de lingueirão não deixarem embalagens de sal no litoral.
Durante a carreira de jornalista, qual foi o projeto mais desafiante?
Gostei muito de coordenar e apresentar os programas “Terra Alerta” e “Economia Verde”. No entanto, a reportagem “Laboratório Antártida” foi o trabalho mais desafiante, a nível de logística. O objetivo era acompanhar os cientistas que investigavam sobre as oscilações do clima. Na ilha do Rei George, onde estivemos, andávamos muito a pé, com o equipamento de gravação “às costas” com condições climáticas muito adversas.
Como é que os jornalistas do ambiente evitam a fadiga do público em relação às notícias repetitivas sobre o clima e mantêm o interesse ao longo do tempo?
O jornalismo de soluções é a opção mais inteligente, a longo prazo. Propor aos editores dos jornais as soluções ou proceder a trabalhos colaborativos juntando jornalistas de diferentes plataformas são outras estratégias. Investir nas histórias locais são também uma boa opção para reter o leitor.
Em que circunstâncias decidiu sair do jornalismo e começar uma carreira como consultora do ambiente?
Em 2019, houve uma rescisão amigável na SIC. Achei que seria a melhor altura para avançar para as políticas públicas, envolver-me no ativismo climático e aprofundar os estudos na área do ambiente. Atualmente, estou muito interessada em dar o meu contributo na transição energética.Para mim, é muito importante trabalhar numa área que esteja em sintonia com os meus valores e princípios”.
Desde março trabalha na Cooperativa de Energias Renováveis, mais conhecida como Copérnico. Que funções exerce?
As minhas funções recaem na área da comunicação e gestão de projetos. Neste exato momento, estou a trabalhar num projeto europeu denominado “Community Energy for Energy and solidarity “. No fundo, investigamos como se pode ajudar as pessoas mais vulneráveis a viver nas suas casas, melhorando a eficiência energética e também do conforto térmico. Para mim é um privilégio.
Tendo em conta vários casos suspeitos no País, em que medida a corrupção prejudica a eficácia das políticas ambientais?
Além de prejudicar a eficácia, acaba por criar uma sensação de impunidade que leva ao incumprimento das regras. A corrupção pode tomar muitas formas. Prejudica tanto o ambiente como a nossa qualidade de vida.
Como alguém que defende o bem-estar do planeta, de que forma considera que as redações jornalísticas podem hoje promover uma cobertura mais sustentável e responsável das questões climáticas?
Para mim, é importante que haja conhecimento dos jornalistas nesta área. Não falo de formação especializada e científica, mas estar bem informado da ciência climática. No fundo, estar familiarizado com o tema. Além da formação científica, tentar aproximar a questão do ambiente com as questões diárias também contribui para uma boa receção por parte dos leitores devido à familiaridade.
Aluna do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Entrevista editada por Fátima Lopes Cardoso