A investigadora da Universidade do Minho denuncia que os profissionais de comunicação são, muitas vezes, tratados como “criminosos” e sentem-se desmoralizados na luta climática por não serem levados a sério
Anabela Carvalho, professora e investigadora em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, apresentou, em 2022, o projeto “Youth activism on climate change”, no âmbito do JustFuture, que conseguiu identificar “275 grupos com algum envolvimento no ativismo climático em Portugal”, concentrados, sobretudo, em Lisboa e no Porto. O estudo ajudou a perceber as visões socioambientais de grupos de jovens ativistas climáticos, como o Climáximo, Greve Climática Estudantil e LIDERA a Década do Clima, bem como as perspetivas de democracia que estão a ser construídas.
No âmbito do seminário “O Jornalismo Climático vai à Universidade”, a investigadora esteve na ESCS para falar sobre os média e a participação da sociedade civil neste tema. Em entrevista à margem do evento, a especialista afirmou que “a sociedade portuguesa está sensibilizada, mas uma coisa é a sensibilização e outra é a participação e o envolvimento”.
Como nasceu este projeto? Existia uma lacuna no conhecimento sobre os jovens e as lutas climáticas em Portugal?
A ideia surgiu na sequência de uma investigação que já estava a decorrer há algum tempo sobre as alterações climáticas, mas depois decidimos centrar-nos no universo dos mais jovens porque é uma temática muito abrangente, na qual há sempre muita investigação a desenvolver ao nível da comunicação.
Como é que tiveram a certeza que seria o momento certo para iniciar esta investigação?
Porque, nessa altura, o movimento Greta Thunberg era recente e os participantes neste projeto queriam ver se havia alguma alteração no discurso sobre o clima.
Portanto, era evidente que havia um grande interesse por este tema.
Sim, foi um tema que atraiu muita atenção. Os meus colegas, que já tinham realizado investigação sobre jovens e a participação pública e política, tal como eu, acharam que seria interessante juntar estas duas ideias de ativismo climático e juventude e relacioná-las com os meios de comunicação social.
Como procederam à recolha de dados e informações de todos os grupos?
A recolha de dados foi complexa porque, muitas vezes, não sabíamos como chegar a determinados grupos, uma vez que não eram conhecidos. Acedemos a manifestos publicados por certos meios de comunicação social, a nomes de pessoas que assinam artigos de opinião sobre o clima em jornais, através de publicações nas redes sociais… para aumentar o número de grupos a analisar.
Utilizaram as redes sociais para aceder ao conteúdo desses grupos, uma vez que eram maioritariamente jovens?
As redes sociais foram muito úteis, pois pudemos ver como um grupo se referia a outro grupo que nos era desconhecido e permitiram-nos aumentar o número de participantes.
A idade foi um fator indispensável para o vosso estudo?
É claro que um estudo que se centrasse exclusivamente no setor mais jovem da sociedade teria muito mais impacto, mas tivemos de deixar um pouco de lado a questão da idade e concentrarmo-nos nos grupos climáticos em Portugal. Em muitos casos, não era claro se a maioria dos participantes nos grupos era jovem ou não, pelo que não os podíamos classificar como grupos exclusivamente de jovens. Alguns eram jovens, mas os líderes não o eram.
O que é que se pode fazer para que os mais velhos também se envolvam nas questões climáticas?
Muitos grupos incluem pessoas que não são jovens. Além disso, muitos dos líderes e gestores de grupos de resiliência às alterações climáticas são pessoas mais velhas. Nos próprios meios de comunicação social, há jornalistas mais velhos que cobrem as áreas do ambiente e das alterações climáticas há muito tempo.
Existe alguma diferença no rácio entre pessoas mais jovens e mais velhas?
Muitas vezes, não é proporcional porque também há muitos jovens que estão conscientes do que está a acontecer no mundo, mas não se envolvem na luta e na correção da situação para a melhorar e evitar que o problema se agrave.
Será que não se envolvem para evitar processos judiciais ou sanções que, de algum modo, os possam prejudicar profissionalmente?
No fim de contas, quando se trata de um profissional que trabalha nos meios de comunicação social há muitos anos, tem mais a perder porque tem um perfil e uma reputação a manter. Lidar com estas questões pode ser prejudicial para eles e fazê-los perder um pouco de respeito como profissionais dos média. Por outras palavras, é muito difícil para as pessoas mais velhas envolverem-se nestes assuntos, uma vez que requerem muita dedicação e horas de trabalho. A disponibilidade é, por vezes, escassa.
Após este estudo, foi possível observar resultados positivos relativamente à existência de grupos combativos em Portugal. Por que é que existem tantos grupos no País?
O ativismo climático e a sua elevada percentagem de participação devem-se ao facto de, em Portugal, tal como em Espanha, existirem muitos pequenos grupos e jovens que fazem greves estudantis pelo clima, o que incentiva outros jovens a aderir.
Os grupos ativistas formados entre os mais jovens desaparecem quando acabam os estudos. O que considera que se pode fazer para transformar estes grupos pontuais em permanentes?
O ativismo é algo muito exigente, mas o bom destes grupos é que, muitas vezes, quando acabam os estudos, continuam a exigir a necessidade de defender o planeta e a pedir aos governos e aos líderes que mudem a realidade. Mesmo assim, muitos destes grupos desaparecem e por isso isso é muito importante que sejam disponibilizados mais meios e recursos. Apesar de este ativismo ser voluntário, é muito cansativo e desgastante.
O papel dos jornalistas
Existem lacunas na abordagem desta luta?
Sim, os profissionais desta área da comunicação dedicam-lhe toda a sua vida. É um espaço que os mantém ocupados a maior parte do tempo e os desgasta mental e fisicamente. Por isso, é necessário um processo de profissionalização do ativismo. Quanto mais ferramentas tiverem ao seu dispor e quanto maior for a profissionalização, mais fácil será para eles trabalharem e conseguirem atingir os objetivos.
Os jornalistas especializados em questões climáticas são alvo de críticas mais severas e estão constantemente sob os holofotes?
Os jornalistas são, muitas vezes, tratados como criminosos e podem sentir que não há conhecimento sobre o assunto ou que este não é levado a sério. Isto resulta numa desmoralização geral da profissão.
A sociedade, nomeadamente a portuguesa, está consciente deste facto?
Penso que a sociedade portuguesa está consciente. Em Portugal, sempre houve um sentimento de preocupação com os alarmes climáticos, mas isso não significa que as pessoas façam alguma coisa. Por isso, um passo muito importante é a consciencialização da sociedade. Mas uma coisa é a consciencialização e outra é a participação e o envolvimento.
Temos tendência a enviar muitas mensagens à sociedade em geral e a culpá-la por todos os problemas ambientais. O que pensa dos grandes líderes de mercado e das suas ações?
Nem tudo reside nas ações dos indivíduos. Muitas vezes, as questões não estão nas mãos dos cidadãos. Por exemplo, a falta de investimento nos transportes públicos tem consequências diretas e isso não depende dos indivíduos, mas sim das entidades que deveriam ser mais responsáveis e estar mais envolvidas. Outro exemplo é a questão de que, por vezes, os produtos mais duradouros e amigos do ambiente são muito mais caros e as pessoas não têm dinheiro para isso, pelo que compram aqueles que são mais baratos e mais prejudiciais.
Em vez de culpabilizar as pessoas, o que é que devemos fazer?
Não se deve culpar as pessoas porque o sistema social, económico e político e, especialmente, os detentores do poder devem criar condições para que a sociedade transforme as suas preocupações em ações concretas.
O grau de envolvimento dos meios de comunicação social é fundamental para a sensibilização e reconhecimento destes problemas ambientais e climáticos. Será que os média estão a tratar corretamente estas histórias?
Há muitas diferenças dentro dos próprios meios de comunicação social. Por exemplo, no Público, há pessoas que trabalham muito bem e outras que nem por isso. Também é preciso ter em conta que não se pode falar dos meios de comunicação social em geral, porque cada um é um caso único, mas é verdade que muitos órgãos de comunicação têm melhorado a forma como relatam os assuntos.
Devem continuar com a dinâmica atual ou introduzir algumas alterações?
Há coisas a melhorar. Devem tentar compreender melhor o ativismo e as razões pelas quais as pessoas se manifestam. Ou seja, devem dar o ponto de vista dos membros destes coletivos e não apenas criminalizá-los. Mas, para mim, quem tem o poder de mudar as coisas diretamente são os políticos, porque podem fazer muito mais lobbying.
Aluna de Erasmus da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso