
Em Anços, a cerca de 8 km de Sintra, após anos de cooperação entre os vários membros do projeto da Aldeia do Vale, a comunidade testemunha uma notável regeneração do solo e um aumento na biodiversidade. O interesse crescente de quem por aqui passa demonstra o modelo inspirador da permacultura, uma técnica de agricultura sustentável
Ao contrário do que muitos possam pensar, Sintra não se limita apenas aos famosos palácios, castelos e cafés pitorescos. Há uma faceta menos conhecida, mas igualmente encantadora: o espaço rural. Na Aldeia do Vale, um refúgio localizado entre Sintra e a Ericeira, onde o cenário urbano se dissolve numa paisagem verdejante e repleta de árvores de grande porte, o aroma da terra molhada envolve quem chega num espetáculo de biodiversidade.
Este local, anteriormente degradado devido ao aproveitamento incorreto do solo, constitui agora um ecossistema repleto de uma diversidade de plantas e animais. O segredo por detrás da prosperidade desta comunidade deve-se a uma prática de agricultura que tem vindo a ganhar mais seguidores nos últimos anos: a permacultura.
O projeto da Aldeia do Vale teve início em 2016, quando Sílvia Floresta e o marido, Orlando Floresta, se depararam com o terreno semiabandonado. Motivados pela paixão que possuem pela natureza, dedicaram-se à reabilitação da região através da cooperação com agricultores vizinhos para a promoção desta prática agrícola mais sustentável. “Estamos muito mais perto das pessoas para as ajudar e para que elas possam visitar a Aldeia do Vale”, explica a mentora da iniciativa.
Sílvia Floresta nasceu na cidade, na Amadora, e veio para o campo com 21 anos. “Senti a necessidade de mudar”, conta. Estudou na área de Ciências e especializou-se em Agroecologia, na Austrália. Apesar de ter estudado produção musical, Orlando Floresta formou-se também em Agroecologia e construção natural. Juntos, fizeram voluntariado em imensos projetos, antes de construírem a comunidade que é hoje conhecida por Aldeia do Vale.
Registado como um instituto de investigação de ciências naturais e similares, o projeto visa não só realizar pesquisas e experimentos próprios, mas também servir como um centro educacional para estudantes universitários. “Inicialmente, era para sermos nós a fazer as nossas próprias investigações e experiências. Mas como temos uma vertente académica, achámos que este lugar poderia ser um local de investigação para licenciaturas, mestrados e doutoramentos”, acrescenta Sílvia Floresta.
Um armazém orgânico
A cozinha é o espaço central onde os alunos participantes nos diversos programas e workshops oferecidos pela Aldeia são acolhidos. É também neste pequeno recinto que uma vasta diversidade de produtos provenientes dos diferentes setores da Aldeia é armazenada. No lado direito da cozinha, é possível encontrar um compartimento com uma variedade de frascos com cogumelos desidratados, legumes, uma seleção de ervas aromáticas e uma vasta gama de especiarias.
No coração da Aldeia, encontra-se o jardim principal, local de onde parte esta visita. A guia é Katalin Dezsény. Tem 25 anos e é húngara. Licenciou-se em Arquitetura Paisagística, mas sempre teve um fascínio pela permacultura. Foi graças a este interesse que entrou em contacto com o projeto Aldeia do Vale e já passaram cerca de oito meses desde que começou esta jornada. “Aqui faço um pouco de tudo”, confidencia a arquiteta, com entusiasmo.
Já no local, Katalin Dezsény começa por mostrar o jardim da família Floresta, que chama a atenção pela variedade de flores. Dentro deste espaço, há também uma horta, que é muito mais do que um simples espaço agrícola: é um sistema complexo e bem organizado, com plantas de cultura permanente dispostas em camadas, onde cada uma desempenha um papel vital no ecossistema. “Aqui na Aldeia, apenas duas plantas não são de cultura permanente. Curiosamente, são as que têm menos animais e bicharocos por perto”, nota.
Um dos princípios fundamentais da permacultura é o uso eficiente de camadas no cultivo e na construção de ecossistemas. Como esclarece a fundadora do projeto: “Primeiramente, o aumento da biodiversidade é um dos benefícios mais significativos das camadas na permacultura. O cultivo permanente de uma grande diversidade de plantas num mesmo espaço plantas pode ajudar a controlar pragas e promover o equilíbrio no ecossistema. Além disso, a organização de plantas em diversas camadas permite que se utilize plenamente o espaço disponível”,
A permacultura baseia-se, também, no aproveitamento dos recursos naturais disponíveis para promover o crescimento das plantas de forma sustentável. Esta abordagem fica evidente no cultivo de cogumelos, que é realizada no canto menos ensolarado da horta.
O rápido crescimento dos cogumelos deve-se à combinação ideal de humidade e sombra, proporcionada naturalmente pela posição estratégica dos troncos. Após a colheita, os cogumelos são desidratados e preservados em frascos durante até seis meses. Enquanto se dirige para a parte onde armazenam compostagem orgânica essencial para o cultivo das plantas, Katalin Dezsén explica que “esta abordagem agrícola sustentável evita o uso de produtos químicos e opta por técnicas como a compostagem para criar fertilizantes orgânicos a partir de resíduos naturais”.
Katalin Dezsény descreve ainda como se gera fertilizantes orgânicos: “Um exemplo de um composto. Os vermes que crescem aqui dentro são colocados numa camada acima da camada de biomassa e servem de fonte de alimento para as plantas. É necessário ter atenção para deixá-los bem fechados. Caso contrário, os vermes acabam por escapar. É essencial ter alguma água no interior, pois fica muito seco, especialmente no verão.”

Reconectar raízes
Recuperar o terreno para a Aldeia do Vale e transformá-lo numa agrofloresta em quatro anos não foi um trabalho fácil. Como refere Katalin Dezsény: “Na permacultura, tem de se utilizar o solo de maneira apropriada e é necessário contribuir para a sua manutenção. É, essencialmente receber da natureza, mas também poder retribuir.”
Para proteger as plantações e prevenir de doenças, são utilizados “sistemas integrados, como aves e rãs, de forma a imitar a própria natureza”, explica também. “E não cavamos. Quem cava por nós são as raízes das plantas e as galinhas.” Na aldeia, até os sistemas de água são projetados para minimizar o desperdício e maximizar a eficiência. Com uma rede de captação de água da chuva e sistemas de irrigação naturais, a Aldeia do Vale mostra como é possível viver em harmonia com os recursos limitados do planeta.
Paragem seguinte: a agrofloresta. É semelhante a uma floresta-jardim, mas é mais virada para produzir frutas e legumes, que por sua vez são usufruídos pela comunidade. “As árvores nunca são todas da mesma espécie. Têm sempre de ser diversas e distintas umas das outras, de forma a evitar a monocultura.”
Entre cada árvore, plantam-se espécies pioneiras, que crescem rapidamente e permitem enriquecer o solo que se encontra infértil e degradado. “Este sistema tem o objetivo de imitar os ecossistemas naturais para aumentar a produtividade, a biodiversidade e a resiliência do solo”, aponta. Mais à esquerda, segue-se o mesmo princípio, mas com vegetais plantados entre as árvores em vez de arbustos.
Uma romeira, pessegueiros e alperceiros. Também estão aqui espécies pioneiras entre as árvores, como a planta sabuco. Algumas folhas destes arbustos são colocadas em camadas no solo sob as árvores para criar biomassa, que serve como fonte de alimento para as plantas e ajuda-as a crescer. “Já ajudámos um produtor de uma monocultura de Pera Rocha a adotar uma agrofloresta. Cerca de oito hectares. Com isto, aumentou o seu rendimento através de uma maior diversidade de produtos”, refere Sílvia Floresta.
A permacultura académica
Além de ser um centro de investigação e pesquisa, a Aldeia do Vale tornou-se num instituto de ensino não formal em agroecologia. Este organismo oferece várias formações, workshops e estágios, abertos a todas as idades e qualificações. As formações são estruturadas em aulas teóricas e práticas, adaptadas para atender a diversos horários e níveis de conhecimento. “É usada uma linguagem muito simples e qualquer um pode participar”, refere Sílvia Floresta.
Caminha-se por entre as árvores e os arbustos até ao edifício onde são lecionadas as aulas teóricas. O Dome, bastante diferente de uma sala de aula comum, destaca-se não apenas pela sua acústica e conforto, mas também por ser eco-friendly, alinhada com os princípios da Aldeia do Vale.
As aulas abrangem vários tópicos, desde práticas agrícolas sustentáveis até aspetos sociais e económicos da permacultura. “A permacultura ensina como é que se desenha a propriedade no geral, seja ela urbana ou rural”, explica a fundadora. “Além disso, damos uma formação continuada a professores e trabalhamos com escolas públicas para ensinar as crianças sobre a agricultura sustentável.”
Através de parcerias com universidades europeias, os alunos podem realizar pesquisas de graduação, mestrado e doutoramento. “As formações têm uma duração máxima de duas semanas, mas depois temos os estágios prolongados que podem durar três ou até mesmo seis meses”, esclarece Katalin Dezsény. A arquiteta destaca ainda que os menores não pagam. “Oferecemos bolsas de estudo e fazemos acordos de pagamento com os estudantes”, acrescenta. Mesmo assim, ainda é possível fazer voluntariado, seja ele interno ou externo. “Recebemos pessoas de todo o mundo. Não trabalhamos só aqui, mas também nos Açores e, em princípio, vamos trabalhar na Madeira”, refere ainda.
Já as aulas práticas, podem decorrer na própria Aldeia do Vale ou no terreno de um vizinho e incluem várias atividades como a “construção de jardins de permacultura, a colheita de cogumelos, o crescimento de sementes e outros tópicos variados. Estes esforços por parte dos participantes acabam por ajudar bastante a comunidade local, que é um dos principais focos do projeto”, esclarece Katalin Dezsény.
A comunidade é a semente
Sílvia Floresta dá enfase à importância da comunidade que contribui para a Aldeia do Vale. “O objetivo da permacultura não é o isolamento. É contribuir para a comunidade e também interagir com ela. Temos como meta alimentar-nos a nós e à nossa comunidade.” Cerca de 60 a 70% da alimentação produzida internamente é aproveitada e contam com a ajuda de produtores locais para o restante, como por exemplo, a carne de animais.
O trabalho com escolas públicas ajuda, também, a alcançar os jovens. Através dessas parcerias, conseguem alcançar um público mais amplo e promover uma mudança positiva na educação e na alimentação. “Trabalhamos imenso com escolas públicas. Recebemo-las e damos formação a crianças. Além disso, fazemos cabazes de comida com excedentes e entregamo-los à escola local que identifica as famílias com necessidades”, explica a fundadora do projeto.
A Aldeia do Vale enfrenta, no entanto, desafios, especialmente em termos de credibilidade e de apoio. “Temos tido dificuldades a encontrar apoios”, admite Sílvia Floresta. “A parte mais difícil é sermos nós os hosts e não termos apoios financeiros”, completa. O objetivo é inspirar as futuras gerações e mostrar que há um rumo alternativo ao sistema convencional. “Um caminho que traz saúde mental e rendimentos”, sublinha. Com isto, antigos alunos que passaram pela Aldeia do Vale têm os seus projetos iniciados. Os projetos Liberta-te, Possíveis Soluções e Quinta Alma, no Algarve, são alguns exemplos.
Sílvia Floresta encoraja os estudantes de Jornalismo a abraçarem iniciativas locais para o bem-comum e das futuras gerações: “Façam-no de forma ética e para o bem da humanidade. Podem usar jornais como referência para criar projetos sem sequer terem de estar no campo, como, por exemplo, o jornal O Mapa.”
A Aldeia do Vale é muito mais do que a prática da permacultura. É uma história de resiliência, compromisso e esperança. A comunidade não produz só alimentos de forma sustentável, mas também cria uma rede de conexões sociais, de forma a partilhar conhecimento e valores com escolas, jovens e famílias locais. Com o objetivo de incentivar a práticas agrícolas sustentáveis, Sílvia Floresta salienta que “todos aqueles que visitarem a Aldeia do Vale recebem sementes para poderem plantar em casa”. Desta maneira, quem visita a aldeia pode levar para casa uma recordação desta experiência de cooperação com o meio ambiente e de criação de laços de respeito com a natureza.