Consciencializar os estudantes para a importância do jornalismo climático foi o mote do seminário que reuniu especialistas sobre o tema, na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), no dia 6 de março. Quase no final do programa, o investigador grego George Pleios revelou as conclusões de uma temática a que tem dedicado a carreira: como é que os meios de comunicação representam os refugiados climáticos. Os estudos do professor da Universidade de Atenas provaram que têm alimentado estereótipos negativos
Os relógios marcavam as nove horas quando o seminário começou. Vera Moutinho, professora na ESCS e coordenadora do projeto “Jornalismo Climático na Universidade”, abriu o evento com uma breve introdução para alertar para a crise climática que o mundo enfrenta, defendendo “a necessidade de alargar a literacia climática nas redações.”
Conforme o programa pré-estabelecido, a primeira questão a ser explorada focou-se na temática das alterações climáticas, com o jornalista Ricardo Garcia. Em seguida, Aline Flor, jornalista do Azul, plataforma do Público dedicada ao ambiente e crise climática, apresentou a forma como o jornal aborda, diariamente, estas questões. Já perto do fim da manhã, o público assistiu a um debate em que se discutiu o tema da crise climática e as eleições, dando ênfase aos desafios colocados ao jornalismo. Depois do almoço, às 14h00, teve início a segunda parte do seminário. A primeira palestra incidiu sobre o envolvimento dos cidadãos e dos média com o tema.
Por volta das 15h00, assistiu-se a uma apresentação conduzida por George Pleios, professor na Universidade de Atenas e diretor do Laboratório de Investigação Social em Mass Media, que captou particularmente a atenção da audiência: os fluxos de refugiados e os média. Como afirmou: “I feel like fly in the milk” (sinto-me como uma mosca no leite), porque sabia que a temática que ia desenvolver distanciava-se das restantes antes apresentadas, mas não deixava de estar relacionada e de ser igualmente de extrema importância.
“Muitas vezes, os jornalistas não fazem a ligação entre os refugiados que saem dos seus países com as causas climáticas”, afirmou inicialmente Vera Moutinho, fornecendo aos espectadores uma pista do que será o conteúdo da apresentação.
O conceito, segundo o professor, entrou no discurso mediático grego há relativamente pouco tempo. O investigador fez alusão às pessoas que se veem forçadas a deslocarem-se para outros países devido a problemas relacionados com questões climáticas. “São também refugiados, apesar de, na maioria das vezes, darmos esta designação apenas a quem é obrigado a procurar abrigo e segurança em locais longínquos por motivos relacionados com conflitos armados”, esclareceu.
O nome que a opinião pública atribui a estas pessoas revela alguma inconstância. Os média estão constantemente a mudar a terminologia quando se referem a refugiados climáticos, o que, segundo George Pleios, “é inútil para estas pessoas”. No entanto, como explicitou, “para quem não sabe a diferença entre os vários termos, é confuso, porque tanto lhes chamamos refugiados, migrantes ou pessoas vulneráveis que procuram asilo. Ao contrário do que vulgarmente se pensa, eles não vêm para a Europa para fugir das zonas de guerra, mas sim para fugir às alterações climáticas acentuadas”.
Os dados apresentados ajudaram a perceber as razões que levam os refugiados climáticos a escolher a Europa como destino: “Sentem que aqui estão a salvo daquilo que os fez fugir: não a guerra, mas sim as situações insustentáveis geradas pelos problemas climáticos nos seus países de origem.”
A intervenção de George Pleios também demonstrou que o número de refugiados climáticos tende a aumentar. Segundo as Nações Unidas, temos mais de um milhão de refugiados todos os anos e estima-se que, num futuro próximo, serão mais de 200 milhões. Apesar dos números, pouca gente parece estar consciente desta realidade. “São tratados como refugiados normais, mas, na verdade, estas pessoas fogem das suas casas devido às alterações climáticas. Fogem para salvar as suas vidas”, revelou o professor.
Além de serem raramente mencionados pelos média, na parte ocidental do planeta, estes refugiados são retratados, de acordo com a criminalização e segurança, como invasores: “Em países como a Grécia, são muitas vezes ‘olhados de lado’ devido à sua religião, principalmente a muçulmana, acabando por dificultar a sua adaptação ao país e enaltecer a pobre representação destes refugiados climáticos nos média.”
O cenário está, no entanto, a mudar, uma vez que, segundo o investigador grego, “atualmente, tem havido um esforço dos média para falarem mais sobre os refugiados climáticos”. O investigador defendeu que “a comunicação social tem a responsabilidade de garantir que a informação chegue à população”. Como sublinhou: “Um assunto destes, com tanta relevância, deve ser alvo de mais atenção e compreensão por parte do público. Nesse sentido, deve haver um comprometimento por parte destes meios para que tal possa acontecer.” George Pleios acredita numa intervenção mais responsável e fiel por parte da comunicação social para conseguir transmitir a realidade pura destes refugiados, a fim de sensibilizar o público e dar a conhecer e reconhecer a sua relevância. “Somos a voz da mudança”, finalizou.
Alunas do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso