De Oslo Metropolitan University à Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), vários profissionais de informação, ativistas, investigadores e estudantes de Jornalismo estiveram reunidos naquele que foi um dos primeiros seminários nacionais sobre o tema
Num dia bastante produtivo, os aspirantes a jornalistas foram convidados a participar e a assistir de perto às várias sessões que integraram o seminário “Climate Crisis and Elections: Challenges for Journalism”. O projeto nasceu da parceria entre a Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) e a Oslo Metropolitan University (Oslo Met), financiada pelo programa EEA Grants, com o objetivo de levar não só os estudantes de Jornalismo a pensar mais criticamente sobre o assunto, ao mesmo tempo que partilham os pontos de vista com os profissionais, mas também numa tentativa de discutir o papel do jornalismo climático e a sua influência.
O debate principal, “A crise climática na cobertura das eleições”, contou com a presença de Carla Castelo, ex-jornalista especializada em ambiente que encerrou a carreira em 2019, na COP25 em Madrid, e que atualmente exerce a função de consultora de comunicação; Miguel Prado, que começou a escrever sobre economia, no Jornal de Negócios, e atualmente cobre a secção da energia, no jornal Expresso; Rita Siza, jornalista do Público e correspondente nos Estados Unidos, e Andreas Ytterstad, professor da Universidade Metropolitana de Oslo e investigador que tem publicado diversos artigos científicos sobre o conceito de “green shift” (mudança verde).
A discussão focou-se em perceber a forma como os jornalistas abordam as eleições e, em simultâneo, as questões climáticas, mais concretamente em entender a influência que o jornalismo climático ou o jornalismo generalista tem nas agendas políticas.
Tanto Carla Castelo como Miguel Prado começaram por defender que os jornalistas também são os responsáveis em falar sobre o ambiente nas campanhas eleitorais, mas que, como referiu o profissional do Expresso, “o jornalismo não pode obrigar os partidos a terem propostas sobre a energia e o ambiente. São os partidos que devem colocar essas propostas nos programas.” Outro problema evocado é a realidade do jornalismo atual. “Além de estar mais reativo porque as redações são mais pequenas e há trabalho para toda a gente, não se está a aproveitar o jornalismo local”, acrescentou a ex-jornalista da SIC.
A abrangência do jornalismo local
Em Portugal, não existe nenhuma rádio, jornal ou revista local que aborde o tema com a atenção necessária, o que a antiga da SIC considera “preocupante”, uma vez que é onde se sente mais os impactos ambientais. “Somos um deserto de notícias”, salientou. Carla Castelo destacou ainda que este deserto de notícias só acontece quando não há uma imprensa livre e independente num determinado local. “Torna-se mais difícil chegar a um movimento de cidadãos ou a um partido político que tenha uma agenda em que o tema do ambiente, no sentido laico, inclua as alterações climáticas e as várias formas de poluição”, acrescentou.
Contrariando a opinião dos dois jornalistas, Rita Siza considerou ser mais difícil expandir o jornalismo local. “É uma realidade difusa. A luta protagonizada pelos jornalistas, no que diz respeito às alterações climáticas, sempre esteve lá. No entanto, é cada vez mais difícil mantê-la nas agendas, já que é dado foco ao que se passa no momento. O contexto hoje é a guerra. Há dois anos era a pandemia”, justificou.
Um dos momentos mais controversos foi protagonizado pela jornalista Rita Siza nos conselhos que deixou aos futuros jornalistas: “Devem saber que esta profissão não oferece um futuro brilhante.” A ideia gerou reações de descontentamento por parte dos estudantes, que sentiram que estavam a ser desmotivados.
Ao contrário desta perspetiva, Andreas Ytterstad deixou uma mensagem bastante motivante e esperançosa: “É necessário contrabalançar o poder que os atores políticos e os jornalistas detêm. A cooperação é uma porta para se descobrirem novas formas de agir.”
No fim, todos os intervenientes concordaram que os jornalistas têm um dever de consciencializar o público acerca do assunto e que se puderem fazê-lo em cooperação maiores serão os objetivos conquistados. “Contudo, vão sempre existir restrições e impedimentos “, apontou o professor da universidade de Oslo.
O debate terminou com uma chamada de atenção de Andreas Ytterstad para os futuros jornalistas: “A primeira coisa que aprendi sobre o ambiente foi a fazer histórias para as pessoas terem interesse, mas que não mencionasse «mudanças climáticas».”