Os refugiados e a forma como são representados em alguns meios de comunicação gregos encerrou o programa do seminário “Climatic Journalism Goes to University”. A iniciativa da ESCS e da universidade norueguesa Oslo Met pretendeu ser um contributo para que os futuros jornalistas estejam aptos a transmitir a informação de uma forma correta e atrativa sobre os desafios climáticos
Com o intuito de enfrentar o desafio de educar e melhor preparar os estudantes de Jornalismo, a Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) e a Oslo Metropolitan University iniciaram um conjunto de iniciativas no âmbito do projeto “Climatic Journalism Goes to University”, com o apoio do programa de cooperação “Portugal e Noruega: Parcerias para a Inovação” dos EEA Grants. Entre as diversas atividades que envolvem professores, investigadores e alunos das duas universidades, inclui-se o seminário “Climatic Journalism Goes to University”, que decorreu no dia 6 de março, na ESCS. Além de figuras ligadas às duas instituições de ensino, o evento contou com a participação de vários jornalistas como Aline Flores, do Azul, que pertence ao jornal Público, e de Ricardo Garcia, um dos pioneiros na área do jornalismo climático em Portugal, bem como investigadores portugueses e internacionais que estudam o tema.
Todas as apresentações se focaram em pontos diferentes do jornalismo climático e das alterações climáticas, como “o que fazer para tornar as notícias sobre as alterações climáticas atrativas”; “a crise climática e o papel dos jornalistas”; “os media e o envolvimento dos cidadãos com as alterações climáticas”.
A terminar o dia recheado de ideias e revelações, George Pleios, professor de Sociologia e diretor do Laboratório para a Investigação Social em Mass Media, na National and Kapodistrian University Athens (NKUA), apresentou as conclusões dos estudos que tem desenvolvido na apresentação “Os refugiados e os Media: opções e significado”.
“Sempre lutei pela minha liberdade, não só na política, mas também em pequenos aspetos da minha vida pessoal”, enfatizou George Pleios. O professor universitário, nascido na capital grega, contou um pouco do seu percurso pessoal e académico. O diretor do Laboratório para a Investigação Social em Mass Media explicou como foi a sua vida de adolescente num regime repressivo e como ganhou a paixão pelo tema de refugiados climáticos, confessando que desde sempre mostrou um forte interesse pela política. Ao longo do percurso de docente universitário, que dura há 33 anos, ensinou Sociologia em contexto internacional, como na Ucrânia, Bulgária e China.
Meios de comunicação: informação ou discriminação
A intervenção de George Pleios no seminário de jornalismo climático marcou todos os que se encontravam na sala, pela paixão contagiante acerca do tema. À medida que falava, alertava para a importância de como este assunto deve ser abordado e transmitido pelos media. Na palestra, o investigador destacou o facto de não ser apresentada uma correta distinção entre os refugiados climáticos e os restantes tipos de refugiados. Segundo George Pleios, “a definição da ONU dos refugiados não incluí os refugiados climáticos. Deve ser alterada para se aplicar a eles”.
O docente grego sublinhou ainda que os meios de comunicação transmitem uma ideia negativa de quem chega à Europa. “Os refugiados são representados como uma ameaça pelos média e designados de invasores, bem como inimigos do país a que chegam”, protestou George Pleios, acrescentando que “o estereótipo gerado pela comunicação social leva a população a construir uma imagem depreciativa acerca desta minoria”.
O professor de Sociologia revelou que “a esmagadora maioria dos refugiados climáticos é proveniente do continente africano e do Médio Oriente. E têm como principais destinos como a Alemanha, França e Países Baixos, países onde procuram melhores condições de vida”.
Tolerância é a chave
Apesar de todos os problemas associados ao tema dos refugiados climáticos, George Pleios salientou que nem tudo está perdido. O investigador referiu que “nem todos os países recebem os migrantes com hostilidade e que há estados mais recetivos e com meios de comunicação mais humanos”,nomeadamente os países do norte da Europa. “Na Escandinávia, não existia a separação de classes que havia na Europa Ocidental. O socialismo era mais suave nesta região”, justificou, realçando ainda que a “tolerância é a condição primária da sociedade moderna”.
Ao contrário da Suécia, da Finlândia e da Noruega, que recebem bem os refugiados, George Pleios acentuou que ainda há discriminação entre os refugiados de países considerados de “lower scale” e os refugiados de países de “higher scale”: “As pessoas dos países de Leste são educadas e bem formadas. No país deles são professores, médicos e etc. Têm diplomas, mas quando chegam cá, ninguém os quer contratar.” Ao alertar para este tipo de discriminação, o sociólogo apelou à procura de uma melhor receção dos migrantes nos países da Europa e do mundo, considerados discriminadores.
Ao destacar a importância dos meios de comunicação na sensibilização deste tema, o investigador grego deixou claro o que é preciso fazer, tanto como cidadãos como enquanto futuros jornalistas para ajudar a combater os preconceitos criados. “Nunca desistam. Têm de ter princípios e de lutar pela verdade.”Foram palavras de ânimo e de alerta que George Pleios quis que ficassem gravadas nos futuros jornalistas. O especialista defende que “não há nada melhor que o diálogo.”
A fechar o seminário, dois alunos da ESCS, Gabriel Miraldo, estudante do 3ºano da licenciatura em Jornalismo, e Maria Maia, que frequenta o mestrado, bem como e dois alunos de Jornalismo, da Universidade de Oslo, Kristina Krogh e Erik Gogstad, partilharam o testemunho acerca dos projetos que realizaram na Noruega e em Portugal, respetivamente. Os estudantes lusos concluíram que “foi uma experiência muito enriquecedora e importante no caminho académico”.
Alunas do 1º ano da Licenciatura em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS)
Artigo editado por Fátima Lopes Cardoso